O demónio andava à solta em Angola, segundo a Inquisição
- Jorge Martins
- 4 de jun. de 2020
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Josefa Maria, 30 anos de idade, filha do lavrador José Ribeiro e de Maria Ferreira, natural de Alqueidão e moradora em Lisboa, foi presa em 6 de fevereiro de 1731, sob acusação de feitiçaria. A sentença, proferida a 17 de junho do mesmo ano, resume deste modo as suas “culpas”:
“(…) para efeito de se vingar de algumas pessoas, e as maleficiar, revirava os olhos e lançava saliva da sua boca na água, que as ditas pessoas haviam de beber, olhando para elas na sobredita forma, dizendo certas palavras, de que refutava sentirem as mesmas picadas no corpo, dores, peso nos olhos, e privação dos sentidos, jactando-se a Ré disto mesmo a certas pessoas. E também creu e adorou o Demónio, dando-lhe culto, e veneração, como a Deus, e como tal lhe ofereceu jejuns, e rezas esperando dele a salvação, e fazendo com o mesmo Demónio pacto expresso de o reconhecer, e adorar por Deus, dando-lhe por prenda, em sinal de sujeição, e obediência um bocado de pano com sangue de seu corpo, entregando-lhe o mesmo, e a alma, tratando com ele lasciva, e torpemente (…)”.
Tendo confessado, alegadamente com mostras de arrependimento, Josefa foi condenada a ir “ao auto público da fé na forma costumada, com carocha [chapéu pontiagudo] e rótulo de feiticeira; nele ouça sua sentença e abjure seus heréticos erros em forma; tenha cárcere, e hábito a arbítrio; seja açoutada pelas ruas públicas desta cidade [Lisboa] sem efusão de sangue [traduzido do latim] não entrará mais no lugar de Alqueidão, e freguesia de Nossa Senhora de Seiça, nem nesta Corte; e a degradam por tempo de cinco anos para o Reino de Angola, e terá um de reclusão nos cárceres do Santo Ofício (…)”
Tendo acabado o dito ano de reclusão no dia 11 de junho do ano seguinte, os inquisidores comutaram-lhe a sentença de degredo para o Algarve em vez de Angola, como previsto. Em julho de 1732, esta comutação da sentença foi acompanhada duma inusitada justificação:
“No auto público da fé que se celebrou na Igreja do Convento de S. Domingos desta Corte a 17 do mês de junho do ano próximo passado foi reconciliada Josefa Maria solteira filha de José Ribeiro lavrador, natural da freguesia de Nossa Senhora de Seiça Bispado de Leiria, e moradora nesta Corte, por culpas de adorar ao demónio, e o ter por Deus foi julgada com um ano de reclusão nos cárceres deste Santo Ofício o qual está acabado, e degradada por 5 anos, para o Reino de Angola, o qual degredo nos parece Vossa Eminência lho comute para o Reino do Algarve, para ficar mais perto do Santo Ofício e naquele estado, tão supersticioso é fácil o demónio a torne enganar.”
(ANTT, Inquisição de Lisboa, processo nº 9156)
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